Espelho de Prazeres

Num extenso oceano espelham-se as estrelas prateadas de uma vida acalentada pelo prazer das emoções, marcada pela frieza das tristezas e perpetrada através do poder das palavras que ficam, imortalizando momentos...

Quinta-feira, Setembro 1

A ocasião faz o ladrão...

Lembro-me da primeira vez que traí. Não é que o tenha repetido assim tantas vezes depois, mas a primeira experiência fica sempre marcada, até porque nessa descoberta estão muitas sensações, muitos medos e muitas conclusões.
Sentia-me especialmente frágil. Susceptível. Num abandono sub-reptício que ninguém vê, ninguém se apercebe, só a protagonista sente e lastima profundamente. Baixei os braços e as armas. Não conseguia mais lutar por um amor que acusava as penas do cansaço, de dias e dias seguidos de convivência sob o mesmo tecto, quando a idade talvez ainda não a aguentasse. O meu sexto sentido avisava-me sempre de quando o meu namorado se afastava... nem que fosse um milímetro. E eu ia de novo ao seu encontro, engendrava surpresas, preparava 'momentos especiais' para que a chama se voltasse a acender.
Nessa altura, não consegui. Estava cansada. Frágil é provavelmente a palavra que melhor me definiria. Sentia falta de sentimentos. De um carinho, de uma festa, de um sorriso e até de uma palavra bonita. À noite que nos deitávamos e me dava o beijo de boas noites, esperava sempre que viesse mais alguma coisa. Quando sentia o seu corpo aproximar-se do meu até me arrepiava e parecia que era, de novo, o primeiro beijo. Mas não! Não era o primeiro, nem tinha continuação. Deixei que a falta de carinho me afundasse nessa tristeza, nessa fragilidade.
Até que um dia reparei num olhar que me perseguia. Nuns olhos que me seguiam para onde eu fosse e que pareciam querer adivinhar aquilo que eu pensava e o que habitava na minha alma, nos meus pensamentos... no meu corpo. Surpreendida comigo mesma, que nunca tinha dado conversa a desconhecidos, vi-me subitamente a falar com outro homem, a deixar que as suas piadas me fizessem rir... e pior, a deixar que as suas palavras me fizessem sentir especial. Especial... aquilo que parecia que o meu namorado tinha deixado de me achar!
Não sei se foram as palavras ou se foi o olhar enigmático. Não sei se foi a forma como ele se movia ou a forma como ele me fez sentir. Sei apenas que me sentia frágil. Que estava cansada dessa fragilidade. E, de repente, à minha frente, uma maneira de olhar diferente. Palavras que todos gostamos de ouvir... que 'todas' gostamos de ouvir. A fragilidade podia ser apenas uma desculpa, um argumento que usava para me convencer a mim mesma que tudo aquilo não era assim 'tão' errado, ou que, pelo menos, não era culpa minha. Mas até a minha razão me dizia que não. Até ela me dizia que eu precisava de me sentir assim.

Já essas conversas começavam a deixar-me transtornada e perturbada e uma noite pediste-me para me levar a casa.

- "É melhor não. Eu vivo com o meu..." - baixei a cabeça. Sim, era a consciência que estava a pesar!
- "Eu sei. Fica tranquila. Deixo-te um pouco antes. Distância de segurança como nas auto-estradas" - esboçaste o sorriso mais malandro que aqueceu o ar frio das noites de Inverno e o gelo que a situação impunha em nós.

Só a lua nos iluminava naquela noite. Seguimos mudos até que parámos. Tinha medo de olhar para ti. Sabia que se os nossos olhos se encontrassem o inevitável ia acontecer. Mas sabia também que se eu não erguesse a cabeça para te ver, tu acabarias por levar a mão ao meu queixo para fazer com que eu te olhasse e aí... aí o contacto da tua mão no meu rosto, da tua pele na minha, seria mais fatal, porque não há nada mais forte que a química.
Aquele beijo já estava desenhado, talvez até traçado nos nossos destinos. Nós sabíamos que ele ia acontecer. Que já tinha estado para acontecer muitas vezes, mas que daquela noite não passava. Não valia a pena fugir...
O beijo.
O beijo envolveu-nos. Começámos por nos beijar apenas com os olhos e depois com a imaginação. De seguida tu baixaste a tua cabeça e deixaste que os teus lábios repousassem nos meus. Mal se tocavam. Apenas se rasaram, mas sentiram tanto aconchego que lá permaneceram. Depois já todo o nosso corpo se beijava.

Obviamente não ficámos por aqui. Encontrámo-nos mais vezes e depois de dado o primeiro passo, os seguintes já não pareciam tão difíceis. Mas questionei-me muitas vezes qual era o verdadeiro significado daqueles encontros para mim. Interroguei-me se aqueles beijos e aquelas palavras que me acariciavam me faziam falta. Precisaria eu, sentir-me assim... especial... com outro? E chegava sempre à mesma conclusão.
Sim, precisava. As palavras e os beijos devolviam-me o que tinha escasseado na minha relação 'oficial'. Com as palavras e os beijos, eu já não me sentia frágil. Mas descubri também que quem eu queria que me fizesse sentir especial não era ele, mas sim o meu namorado. E que cada vez que eu saía de casa para tomar um banho de sentimentos, projectava sempre o rosto do meu namorado na cara do outro.
A aventura acabou. Claro. Todas acabam. 'De aventuras não reza a história', mais ou menos. O meu namorado e eu conseguimos encontrar-nos de novo. Sem que ele precisasse saber o que eu tinha feito, claro!
Mas ainda me lembro da primeira vez que traí. E pergunto-me porque terá isso acontecido. E continuo a apostar no tal argumento da fragilidade. Afinal, se naquele momento o meu namorado me fizesse sentir especial como eu desejava, eu não teria sido receptiva àquele olhar perscrutante, àquele olhar que me quis descobrir. Como diz a sabedoria popular, que é sábia pois claro, 'a ocasião faz o ladrão'!

12 Comments:

  • At Setembro 01, 2005 2:05 AM, Blogger Barbara said…

    "Baixei os braços e as armas."

    E isto faz-nos tão bem...fechar os olhos e apenas sentirmos!!!

    bjs

     
  • At Setembro 01, 2005 2:09 AM, Blogger Muse said…

    Achei sublime a forma como contaste um episodio tão marcante da tua vida, a forma sincera como descreveste cada momento... e claro, pode não ser desculpável, nunca é boa uma traição, mas a traição não é (sempre) sinonimo de não gostar da outra pessoa, pode haver circunstancias q levem a tal, nao quer dizer q mm sendo esse o caso seja desculpável (não é, pelo menos para a própria pessoa, se for uma pessoa com consciência), até pode a pessoa de quem gostas saber/descobrir e perdoar, mas no fundo nunca nos perdoamos nós a nós proprios, e dp, sempre q acontece algum problema, aquele momento "aparece"!!! comecei por generalizar, mas já tá mais doq claro q tb passei por isso, foi apenas uma vez (não me vou alongar mais...)... mas diz-me uma coisa, como terminou? ainda estás com o mesmo namorado? ele chegou a saber? oq aconteceu?

    P.S.- Desculpa a intrusão assim numa forma tão pessoal, ainda para mais na 1ª visita e 1º comentário no teu blog, mas é um assunto q me diz algo!!!

    Beijinhos

     
  • At Setembro 01, 2005 12:25 PM, Blogger la femina said…

    barbara... se sabe. Às vezes temos que nos despir da 'mulher forte e resistente', também gostamos de ser vulneráveis só para que alguém nos acaricie, não apenas o corpo, mas sobretudo o ego!
    ;)

     
  • At Setembro 01, 2005 12:28 PM, Blogger la femina said…

    muse, obrigada pela visita. O que os blogs têm de bom é exactamente não haver intrusões. Aqui quando se começa a gostar das palavras de alguém nasce imediatamente uma empatia. A verdade é que continuo com o mesmo namorado, embora já nos tinhamos afastado mas por motivos absolutamente diferentes. Qdo rompi não houve terceiras pessoas, apenas um descontentamento crescente que me começava a asfixiar. Mas não lhe contei. Às vezes penso que devia, mas depois acho que certas pessoas não têm tanta resistência quanto outras. A mim já me disseram que me tinham traído e eu soube perdoar e 'quase' esquecer. Se eu lhe dissesse... bem não era medo de o perder, era medo que ele se perdesse na dor...

    obrigada pela visita e aparece mais vezes.
    ;)

     
  • At Setembro 01, 2005 1:03 PM, Blogger Borboleta said…

    Não vale a pena argumentar, nem justificar porque se fazem certas coisas. A vida é que nos leva a sentirmo-nos diferentes e a sentirmos os outros de forma diferente. Acho que o que importa aqui é saber que de certa forma acabou bem. Mas infelizmente nem sempre as coisas são assim. Permite que te pergunte: Já tinhas falado com o teu namorado sobre a vossa distância?

     
  • At Setembro 01, 2005 2:08 PM, Blogger Helena said…

    "vi-me subitamente a falar com outro homem, a deixar que as suas piadas me fizessem rir... e pior, a deixar que as suas palavras me fizessem sentir especial." Faço das tuas palavras as minhas...A diferença é que eu fiquei completamente ligada...

    bjs

     
  • At Setembro 01, 2005 3:59 PM, Blogger Angelica said…

    bem, eu nem sei que dizer... talvez apenas que também me lembro da primeira vez que traí... e que percebo o que queres dizer com "todas as aventuras acabam"

    beijo grande....

     
  • At Setembro 02, 2005 12:33 AM, Blogger Muse said…

    Na minha opinião, o melhor é não contar, é a outra pessoa não saber, pura e simplesmente se a situação acabaou, não há nenhuma necessidade de magoar ng!!! nem a pessoa traida, nem nós proprios, volta-se a viver tudo novamente, os maus momentos (sim pq isto de trair não é só festa... pelo menos pra quem tem consciencia q está a fazer algo q não deve!!!) e sobretudo pq é uma marca cravada na relação, dp de se saber, nada vota a ser como dantes (principalmente os primeiros tempos, a desconfiança está sempre no ar (e nao há nada pior q a desconfiança!!!) e qq coisa q aconteça no futurom qq discussão esse acontecimento volta sempre à baila, sempre vivo!!! é uma coisa q nunca morre!!!!

    Não contes, a não ser q sintas mm q o tens q fazer!!!

    Beijinhos!!

    P.S.- Vou continuar a passar por cá obviamente!!! :) obrigado tb pela tua visita e comment!!! :)

     
  • At Setembro 02, 2005 2:19 PM, Blogger sdfsfbsdfbsdfb said…

    Bem, realmente este é um assunto delicado.

    Essa da ocasião faz o ladrão é uma espécie de encontrar a pessoa certa no momento "errado"! :P

    Se num lado somos valorizados e no lado em que devemos ser valorizados não o somos, porque é que há tanta admiração. É só "normal" as coisas acontecerem!

    Às vezes o melhor é não dissecar e analisar mtº a coisa, deixa andar, se for uma coisa realmente de consciência tudo acaba do modo como já estaria escrito!

    Beijos Víperinos!

     
  • At Setembro 02, 2005 5:47 PM, Blogger Vivian said…

    Disseram-me uma vez que o nosso DNA é poligâmico, a sociedade é que nos impôs ao longo dos tempos a monogamia, e eu concordo. Mas há aquelas alturas em que a paixão é tão forte, sentimo-nos tão especiais que só uma pessoa interessa. Era bom que esses momentos durassem para sempre!
    Quando estamos carentes, qualquer sorriso ou olhar de "outro" nos faz sentir novamente especiais e sabe tão bem...

     
  • At Setembro 02, 2005 9:42 PM, Blogger la femina said…

    Acho que sempre que falamos deste tema, chegamos à mesma conclusão. Não há argumentos válidos para desculpa, mas também não os há para nos impedir de repetir a mesma situação. Talvez a nossa natureza seja mesmo polígama e a vida nos tenha tentado aculturar de outra forma. Talvez sejamos exigentes demais connosco e com os outros. Talvez tenhamos uma enorme tendência para a carência e necessidade afectiva. Talvez o pouco simplesmente não nos satisfaça... talvez queiramos sempre o que não é nosso...

    Como disse o Pale há coisas que mais vale não serem dissecadas... não nos levam a nenhuma conclusão brilhante, nem mudam nada. Mas penso que se as partilharmos nos sentimos mais leves e compreendidos. temos é que saber com quem as partilhar. Este é sem dúvida o lugar certo.
    ;)

    p.s. Acredita borboleta que tentei falar sobre a distância. Não sou mulher de deixas os créditos por mãos alheias. E mesmo assim...

     
  • At Março 12, 2008 2:18 AM, Blogger anjodiabrete said…

    A traição até pode fazer bem a uma relação. Desde que a pessoa traida não saiba, claro. Mas sentação de aventura é muito boa e lá por estarmos com outra pessoa não quer dizer nada. Sexo é sexo e pode não se misturar com amor.

     

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